quarta-feira, 17 de maio de 2023

10 Maneiras De Ensinar A Criança A Se Defender De Abusadores, segundo especialista

Quem cresceu ouvindo a história de Chapeuzinho Vermelho, compreendeu o recado: menina, vá pelas sombras; usa essa capa pra esconder seu corpo e esse capote pra esconder seu rosto; não fale com estranhos; ande de cabeça baixa; não deixe o lobo mau perceber que você carrega um doce. A história da Chapeuzinho Vermelho é um mito empírico social de que não se deve falara com estranhos e de que a culpa é da vítima e não do abusador.

Primeiro: a culpa nunca é da vítima. Nunca. Segundo: é claro que não se deve falar com estranhos, mas também é verdade que 73% dos abusos sexuais praticados contra a criança e/ou o adolescente, acontecem dentro da casa da própria vítima ou na casa do abusador. E só em 10% dos casos, o abusador era um desconhecido da criança.

O abuso sexual na infância é como atingir uma mosca com uma bala canhão. Um infortúnio tão grande que pode desencadear sérios quadros de transtornos mentais na adolescência, vários distúrbios emocionais e de comportamentos e coloca a pessoa em risco iminente de desenvolver transtornos mentais graves e até mesmo conduzir ao suicídio.

Este artigo foi produzido para ajudar os pais, mas ele não os coloca numa posição de isentos. Muito pelo contrário, você que está lendo este artigo, pode nos ajudar a responder a seguinte questão: Podemos ajudar os pais a ensinarem os seus filhos a se protegerem do abusador sexual quando este é um estranho ou uma pessoa que não seja o pai e a mãe. Mas quem ensinará as crianças se protegerem também de seus próprios pais?

Apenas 10% dos abusadores são desconhecidos da família

Pesquisas conduzidas pelo Centro de Controle de Doenças (Centers for Disease Control/CDC) estimou que aproximadamente 1 em cada 6 garotos e 1 em cada 4 garotas são abusados sexualmente antes dos 18 anos. Quer ouvir algo ainda mais assustador? De acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (US Department of Justice) apenas 10% dos abusadores eram desconhecidos da família. 23% eram outras crianças maiores e, pasmem, os pais, os avós, os tios e os padrastos estão no ranking das pesquisas. 

Essas estatísticas não surpreendem, já que na prática, sempre encontramos crianças que foram vítimas de abuso sexual. Muitos delas têm menos de 5 anos, quase todas conhecem o seu agressor.

Educação sexual não ensina a criança a fazer sexo, lhe ensina a se defender quem quer fazer sexo com ela

Nós temos que encarar o fato de que não podemos proteger integralmente nossas crianças de quebrarem ossos, de se machucarem ou cometerem erros, nem podemos evitar que estejam sob risco de sofrerem abusos. Assim como nós permitimos que eles subam na bicicleta mesmo que eles possam cair e se machucar – temos que permitir que eles saiam e interajam com as pessoas ao redor. Mas assim como recomendamos o uso do capacete para andar de bicicleta, nós podemos armar nossas crianças com conhecimentos que podem mantê-las seguras do abuso sexual.

Ensine estas três regrinhas

Converse com a criança que você conhece sobre o que é abuso sexual.  Nunca é cedo demais para falar com uma criança sobre os perigos do abuso sexual, bem como também nunca é tarde demais para falar sobre este assunto com o adolescente. Não precisa ser uma conversa assustadora. Você pode criar uma historia, uma fábula, uma canção… Algo com a linguagem adequada para cada idade. 

A chave para combater o abuso sexual infantil é capacitar a criança à prática do direito de dizer não. A criança precisa entender claramente estas três regrinhas:

  • Que o corpo dela é sua propriedade e ela tem o direito de mantê-lo privado.
  • Que ela tem o direito de recusar qualquer tipo de toque de outra pessoa, seja quem for.
  • Que ela tem o direito de dizer não a qualquer pessoa que queira manter algo em "segredo".

10 maneiras de ensinar a criança a se defender de um abusador

  1. Fale sobre partes do corpo

Muitos pais e professores podem se sentir desconfortáveis ​​ao falar sobre a genitália, então os pré-escolares examinam o corpo desta forma: "Esta é minha cabeça, pescoço, braços, mãos, peito, estômago, pernas, pés." O que está faltando? A criança precisa saber que o pênis, a vagina e a nádega são partes do corpo exatamente como o braço ou a perna. Se uma criança precisa fazer uma revelação de abuso – isso pode tornar sua história confusa. Lembra do filme “Um tira no jardim de infância”? – na escolinha havia um garoto de 5 anos que dizia: “meninos têm pênis e meninas têm vagina”. O nosso corpo é a nossa parte mais real e precisa ser respeitado e tratado com realidade e não fantasia.

  1. Ensine que há partes no corpo que são íntimas

Diga a criança que as partes íntimas do seu corpo são chamadas de íntimas porque não são para que todos vejam. Explique que a mamãe e o papai podem até vê-los nus enquanto lhes auxiliam no banho e/ou na troca de roupa, mas nem o papai e nem a mamãe podem “fazer carícias ou cócegas” em suas partes íntimas. E esta regra continua para as pessoas que não vivem com ela na mesma casa. Os adultos e os coleguinhas só devem vê-los vestidos. Explique ainda que o médico dela pode vê-la sem suas roupas, porque a pessoa responsável por ela estará lá com ela. E o médico somente faz isso para ver como está a sua saúde. Diga que ela é a dona do seu corpo. Crianças adoram quando lhes delegam “o poder de dizer não”.

  1. Ensine os limites do corpo

Diga a criança que não permita que ninguém toque em suas partes íntimas e que nenhuma pessoa pode lhe pedir que também lhe toque as suas partes privadas. O abuso sexual algumas vezes começa pedindo a criança para tocar nele ou em outra criança. Alerte a criança para todas as artimanhas do abusador: “eu tenho um lindo cachorrinho, você quer tocá-lo? Vamos lá em casa para vê-lo?”; “Eu lhe dou muitos doces se você beijar aqui…”

  1. Fale para a criança que os segredos são ruins

A maioria dos abusadores dizem a criança para manter o abuso em segredo. Isso pode ser feito de uma maneira amigável, como “Eu adoro brincar com você, mas se contar a outra pessoa sobre o que fazemos, não vão me deixar voltar aqui” ou como uma ameaça – “Este é o nosso segredo. Se você contar a alguém, vou dizer que a ideia foi sua e você vai ter um grande problema”; “Sua mãe pode morrer atropelada se você contar o nosso segredo”. Diga a criança que não importa o que alguém lhe fale, segredos sobre tocar em partes do corpo são ruins. E que existe diferença entre uma coisa ser privada e segredo. Privado é ir ao banheiro fazer xixi e todo mundo pode saber que você está no banheiro fazendo xixi. Já o segredo é aquela coisa que nem mesmo os seus pais ou coleguinha pode saber.  Deixe a criança saber que ele deve sempre lhe contar se alguém está tentando fazê-la manter segredos. Diga-lhe que você jamais ficará zangado com ela se ela lhe contar e jamais achará que ela teve culpa.

  1. Diga a criança que ninguém deve fotografar suas partes íntimas

Esta é uma atitude muitas vezes não percebida pelos pais. Há muitas pessoas doentes, pedófilos que amam fotografar e negociar retratos de crianças nuas online. Você pode não saber, mas existem sites no submundo da internet onde há grupos de pessoas compartilhando pornografia e violência infantil. Esta é uma epidemia e coloca o seu filho em perigo. Por isso, além de falar sobre a privacidade do corpo, explique a criança que ninguém deve jamais tirar fotos suas, seja como for, nuas ou não, a criança deve sempre pedir autorização aos seus tutores. Por isso ensine-a a dizer: “você não tem autorização para tirar uma foto minha”.

  1. Ensine a criança como sair de situações assustadoras ou desconfortáveis

Algumas crianças não se sentem à vontade para dizer “Não” às pessoas – especialmente aos mais velhos ou adultos. Ajude-as a dar desculpas para sair de situações desconfortáveis. Fale para ela que se alguém quiser ver ou tocar em suas partes íntimas ele pode responder, por exemplo, que precisa ir ao banheiro e depois sair correndo.

  1. Crie uma palavra “código” para a criança usar quando se sentir insegura ou com medo

Conforme as crianças crescem, podemos trabalhar com uma palavra “código” que elas podem usar quando se sentirem inseguras. Isso pode ser usado em casa, quando há convidados, no playground ou mesmo quando vão dormir da casa de amigos. Lembra quando eu sugeri para criarem uma história, uma fábula, uma canção…? Então, dentro dessa história que você criar, pode existir um par de amigos que tem uma palavra secreta para os momentos de perigo. A criança achará isso o máximo e confiará sempre em seu amigo das horas de perigo.

  1. Diga a criança que ela nunca vai se dar mal se ela lhe contar que alguém está querendo tocar (ou já tocou) em seu corpo ou lhe pedindo para guardar segredos sobre o seu corpo

As crianças muitas vezes me dizem que não contaram nada aos seus pais porque pensaram que iriam ter problemas. Isso é muitas vezes ameaçado pelo autor do abuso. Diga a criança que não importa o que aconteça – quando contarem qualquer coisa sobre a segurança do corpo ou os segredos do corpo, ela JAMAIS será punida ou criticada.  E, por favor, cumpra isso. Já vi pais prometerem não agredir o filho se este lhe contar a verdade, mas ao saberem da verdade ficam furiosos e agridem o filho, física e verbalmente.

  1. Fale para a criança que um toque no corpo pode fazer cócegas ou parecer legal, mas isso é desrespeito

Todo o nosso corpo foi feito para nos proporcionar prazer. E por isso temos que falar com a criança sobre o que é um “toque bom e um toque ruim”. Explicar que mesmo que sinta uma sensação boa ou cocegas ao ser tocada nas partes íntimas por um adulto, esse adulto não tem o direito de fazer esse tipo de toque. Esse toque é ruim. O toque bom é aquele que não precisa de segredo e que pode ser feito na frente das pessoas: um aperto de mão, um abraço – se ela quiser abraçar, um beijo no rosto ou na testa.

  1. Diga que mesmo que ela conheça a pessoa ou mesmo que seja outra criança – as regras são as mesmas

Este é um importante ponto para discutir com a criança. Quando você pergunta a uma criança o que é um “cara mau”, ela provavelmente vai descrever um personagem vilão de seus desenhos favoritos. Certifique-se de mencionar a criança que ninguém pode tocar suas partes íntimas, nem mesmo aquela pessoa que acha legal. Você pode dizer algo como: “Ninguém deve tocar suas partes íntimas. Se você ainda não sabe lavar suas partes íntimas sozinha, pode aprender tentando todos os dias. Mas, nem amigos, nem tias ou tios, professores, treinadores ou mesmo o papai e a mamãe podem lhe tocar – ninguém. Mesmo se você gosta deles ou pensa que estejam no comando, eles ainda não devem tocar suas partes íntimas”.

Sem o conhecimento do direito de dizer não, as crianças correm um risco muito maior sofrerem abusos

Não sejamos ingênuos em acreditar que essas instruções impedirão absolutamente o abuso sexual, mas as crianças correm um risco muito maior sem elas. O conhecimento é uma força poderosa para o abuso sexual na infância – especialmente com crianças pequenas que são alvo mais fácil devido à sua inocência e ignorância nesta área. Tenha essas conversas frequentemente. Uma vez não é suficiente. Este é um tópico que deve ser revisitado sempre, sempre.

O objetivo deste artigo é sugerir o debate e a reflexão acerca do abuso sexual na infância e na adolescência, e com isso, tentar evitar experiências terríveis e traumáticas, o desencadear da depressão, da prática da automutilação, da busca pelo entorpecimento da dor por intermédio do álcool e/ou drogas e o suicídio. Compartilhe estas informações com aqueles que você ama e se importa. Espalhe a mensagem da segurança do corpo!

Se você quiser que a criança reconheça, aprecie e exerça seus direitos sobre o próprio corpo, você também terá que respeitar esses direitos. Não force sinais físicos de afeto. Se você quer um abraço ou um beijo, peça um. Mas se a criança se esquivar ou disser não, respeite isso e recue. Essa mesma regra deve ser aplicada a todos os seus amigos e parentes. Quando sua irmã vier visitá-lo, você nunca deve ordenar a criança: "Dê um beijo em sua tia". Em vez disso, pergunte a ela: "Você quer dar um beijo em sua tia?" Se ela disser não, não se desculpe e nem peça a criança para se desculpar, porque ela tem todo o direito de dizer não.

4 frases que você deve dizer para uma vítima de abuso sexual

Para concluir conheça as 4 frases que você deve dizer para uma vítima de abuso sexual. Se qualquer criança ou adolescente que você conheça, vier até você com uma potencial revelação de ser uma vítima de abuso sexual, há apenas 4 coisas a lhe dizer:

  • "Eu acredito em você"
  • "A culpa não é sua"
  • "Parabéns por sua coragem em me contar"
  • "Se você quiser, posso lhe acompanhar numa conversa com um especialista".

Estas 4 frases, por si só, já começam uma conversa da maneira certa. Não interrogue a criança. Existem profissionais que sabem fazer isso: a assistente social do CREA ou do Conselho Tutela, a psicopedagoga da escola, os profissionais da delegacia da Infância e da Juventude... São ele que farão as perguntas certas para obter as informações de que precisam.

Você também deve ligar para o número 180 e denunciar. Vamos todos juntos combater a pedofilia. Vem comigo por esse caminho, vem?

Anexo:

Pai e mãe são presos por gravar estupro dos próprios filhos: material era trocado na internet

A Polícia Federal prendeu na quinta-feira (19/09/2019), em Iguape e Cajati, no Vale do Ribeira, em São Paulo, duas mulheres acusadas de participarem de uma série de estupros  torturas contra duas crianças, uma de 5 anos e uma de 12 anos. Os atos eram filmados e distribuídos em fóruns da Deep Webnome dado para uma zona da internet que não pode ser detectada facilmente pelas tradicionais ferramentas de busca.

As prisões fazem parte da segunda fase da Operação Pedomom, que começou em maio deste ano e prendeu um homem em Iguape. A investigação partiu de um comunicado da Interpol sobre a detenção de um casal de ucranianos que produzia e distribuía arquivos contendo imagens de abuso sexual infantil naquele país.

Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão, o brasileiro identificado tentou destruir seu laptop e celulares, sem sucesso. Os dispositivos foram levados à análise do Setor Técnico-Científico da PF, que identificou um grande volume de arquivos contendo cenas de abuso sexual praticados por ele em companhia das duas mulheres detidas nesta quinta. As duas crianças que aparecem nas gravações são a filha do homem e o filho de uma das mulheres.

“Há registro da ocorrência de mais de 30 estupros, além de imagens de tortura praticada contra uma das crianças. No caso de uma das agressoras, foi possível individualizar aproximadamente 20 atos de abuso sexual praticados contra o próprio filho. Os estupros eram filmados pelos agressores, que posteriormente os trocavam em fóruns da Deepweb dedicados especificamente a abusos sexuais praticados por pais e mães”, informa a PF por meio de nota.

O crime de publicação de imagens de pornografia infantil prevê pena de 3 a 6 anos de reclusão. Já o estupro de vulneráveis prevê de 8 a 15 anos de prisão. A primeira fase da operação não foi divulgada à imprensa para não prejudicar a identificação de outros envolvidos.

Este texto foi organizado por Clara Dawn escritora, pesquisadora, psicopedagoga e psicanalista, presidente do IPAM - Instituto de Pesquisas Arthur Miranda em prevenção à drogadição, aos transtornos mentais e ao suicídio na infância e na adolescência.

11 sinais de que a criança está sofrendo abusos, segundo especialista

A Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, lançou a Campanha Nacional Maio Laranja. A campanha tem como escopo incentivar a realização de atividades para conscientizar, prevenir, orientar e combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes. A proposta é tirar o tema da invisibilidade, informando, sensibilizando, mobilizando e convocando toda a sociedade a participar da causa em defesa dos direitos de crianças e adolescentes.

11 sinais de que a criança está sofrendo abusos 

"Não falar sobre a violência sexual e o suicídio na infância e na adolescência, não fará com que essas coisas não aconteçam. Elas acontecem sim. Nós podemos instruir a criança a defender de seu abusador quando este é alguém de fora do ciclo familiar, mas quem ensinará a criança a se defender do abusador, quando este é da família? Ora, a educação sexual não é para ensinar a criança a fazer sexo, é para, entre outras coisas, ensinar a criança a se defender de quem quer fazer sexo com ela.

Sim, porque 73% dos casos de violência sexual contra a criança acontece na casa dela ou na do suspeito, e é cometida pelo pai, padrasto, tio, avô... Em minhas pesquisas teóricas e campo, tenho visto que, infelizmente, a violência sexual sofrida na infância e na adolescência pode desencadear transtornos mentais graves levar à drogadição e ao suicídio. 

Estão relacionados com a violência física, verbal, psicológica e especialmente a sexual na infância e adolescência: a depressão, as crises de ansiedade, crises de pânico, o transtorno bipolar, os surtos psicóticos, a fissura pelo uso de drogas, a automutilação, a ideação suicida e até mesmo o desencadear da esquizofrenia (em indivíduos geneticamente predispostos).

Sinais de que a criança está sofrendo abuso sexual

Embora não seja fácil notar os sinais físicos de um abuso sexual e cada ser tenha o seu modo unimultiplo de sentir e expressar suas dores de existir, clinicamente falando, há alguns sinais que a maioria das crianças e dos adolescentes vítimas de crimes sexuais costumam apresentar. Dentre eles:

  1. Mudança repentina no comportamento: reclusão silenciosa ou agitação nervosa não verbal. Uma criança vítima de abuso também apresenta alterações de hábito repentinas. Pode ser desde uma mudança na escola, como falta de concentração ou uma recusa a participar de atividades, até mudanças na alimentação e no modo de se vestir
  2. Recusa e pânico para não ficar em certos lugares ou na companhia de certas pessoas. (Não despreze esse sinal).
  3. Aproximação excessiva: o contrário também acontece. Muitas vezes a criança se afeiçoa ao abusador por ele ser ‘bonzinho’. Esse ‘bonzinho’ também se mantém muito próximo e demonstra grande interesse na criança. Esse ‘bonzinho’ pede segredo a criança e a faz acreditar que tudo que ele está fazendo com ela é por amor.
  4. Pode acontecer um retrocesso, uma infantilização, como voltar a fazer xixi na cama, ter medos infundados, chupar o dedo, morder outras crianças, destruir objetos, se machucar propositadamente…
  5. Demonstra dificuldade de se relacionar, irritação, rebeldia, brigas constantes…
  6. Demonstra um comportamento sexualizado de maneira incompatível com a idade. Um desenho, uma “brincadeira” com o coleguinha, beijar ao invés de abraçar, tocar nas partes íntimas de outra criança, podem ser sinais de possa estar vivenciando uma situação de abuso. Quando uma criança que, por exemplo, nunca falou de sexualidade começa a fazer desenhos em que aparecem genitais, isso pode ser um indicador. O uso de palavras diferentes das aprendidas em casa para se referir às partes íntimas também é motivo para se perguntar à criança onde ela aprendeu tal expressão.
  7. Manifesta preferência em ficar pelos ‘cantos’ e não sente interesse em sair nem mesmo para os lugares de que mais gosta.
  8. Demonstra ter baixa autoestima, se autodeprecia, se sente rejeitado…
  9. Demonstrar curiosidade extrema por experimentar álcool e outras drogas.
  10. Desenvolver dores crônicas de estômago, disfunção renal e dores de cabeça.
  11. Sinais físicos: Há também os sinais mais óbvios de violência sexual. Em casos que deixam marcas físicas, essas podem ser usadas como provas à Justiça. Existem situações em que a criança acaba até mesmo contraindo doença sexualmente transmissível. A pediatra e a dentistas podem observar se a criança apresenta doenças sexualmente transmissíveis ou feridas suspeitas. Já vimos inúmeros casos de gravidez causada por uma violência sexual. É muito importante ficar atento a possíveis traumatismos físicos, lesões, roxos, dores e inchaços nas regiões genitais.

O que fazer para ajudar?

Geralmente, não é um sinal só, mas um conjunto de indicadores. É importante ressaltar que a criança deve ser levada para avaliação de especialista caso apresente alguns dos sinais mencionados acima. No caso de qualquer suspeita de abuso ou exploração sexual infantil, não hesite em realizar uma denúncia o mais rápido possível.

  • Caso identifique um ou mais dos indicadores listados acima, o melhor a se fazer é, antes mesmo de conversar com a criança, procurar ajuda de um especialista que possa trazer a orientação correta para cada caso.
  • Se você conversar com a criança ou adolescente, o conselho dos especialistas é sempre confiar na palavra dela. É importante que a criança possa se sentir ouvida e acolhida; que o adulto não questione aquilo que ela está contando, ou tente responsabilizá-la pelo ato.
  • Se tiver dúvidas procure a coordenação da escola, que costuma ter profissionais treinados pra identificar casos de violência sexual.
  • Você pode acionar o Sistema de Garantia de Direitos, por meio do Conselho Tutelar, Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) ou Vara da Infância e da Juventude.
  • Não se omita – Disque 100. O Disque 100 é o canal de denúncias criado pela Secretária de Direitos Humanos e está preparado para atender e orientar denunciantes e/ou vítimas de violência sexual.

Levante essa bandeira: A culpa nunca é da vítima. E não existe impulso sexual incontrolável.

 

Clara Dawn, escritora, psicanalista, neuropsicopedagoga, presidente do IPAM - Instituto de Pesquisas Arthur Miranda em Prevenção à Drogadição, aos Transtornos Mentais e ao Suicídio na Infância e na Adolescência.

domingo, 2 de abril de 2023

02 de abril: Dia Mundial da Conscientização do Autismo

Foto: autismspeaks.org

O Dia Mundial da Conscientização do Autismo, 2 de abril, foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), no ano de 2007. Essa data foi escolhida com o objetivo de levar informação à população para reduzir a discriminação e o preconceito contra os indivíduos que apresentam o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autismo não é uma doença, não é um defeito a ser corrigido, é apenas um jeito de ser, uma peculiar caracterizada por desafios em habilidades sociais, comportamentos repetitivos, fala e comunicação não-verbal, dentre outras.

Não existe um tipo de autismo. Existem muitos

De acordo com os Centros de Controle de Doenças, o autismo afeta cerca de 1 em cada 44 crianças nos Estados Unidos hoje.

Sabemos que não existe um autismo, mas muitos subtipos, mais influenciados por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Como o autismo é um transtorno do espectro, cada pessoa com autismo tem um conjunto distinto de pontos fortes e desafios. As maneiras pelas quais as pessoas com autismo aprendem, pensam e resolvem problemas podem variar de altamente qualificadas a severamente desafiadas. Algumas pessoas com TEA podem precisar de apoio significativo em suas vidas diárias, enquanto outras podem precisar de menos apoio e, em alguns casos, viver de forma totalmente independente.

Vários fatores podem influenciar o desenvolvimento do autismo, e muitas vezes é acompanhado por sensibilidades sensoriais e problemas médicos, como distúrbios gastrointestinais (GI), convulsões ou distúrbios do sono, bem como problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e problemas de atenção.

Os sinais de autismo geralmente aparecem aos 2 ou 3 anos de idade. Alguns atrasos de desenvolvimento associados podem aparecer ainda mais cedo e, muitas vezes, podem ser diagnosticados aos 18 meses. Pesquisas mostram que a intervenção precoce leva a resultados positivos mais tarde na vida de pessoas com autismo.

Quais são os sinais do autismo?

A idade do diagnóstico do autismo e a intensidade dos primeiros sinais do autismo variam amplamente. Alguns bebês mostram dicas em seus primeiros meses. Em outros, os comportamentos tornam-se óbvios até os 2 ou 3 anos de idade.

Nem todas as crianças com autismo apresentam todos os sinais. Muitas crianças que não têm autismo apresentam alguns. Por isso a avaliação profissional é fundamental.

O seguinte pode indicar que seu filho está em risco de um transtorno do espectro do autismo. Se o seu filho apresentar qualquer um dos seguintes, peça uma avaliação ao seu pediatra ou médico de família imediatamente:

Aos 6 meses

Poucos ou nenhum grande sorriso ou outras expressões calorosas, alegres e envolventes. Limitado ou nenhum contato visual.

Aos 9 meses

Pouca ou nenhuma troca de sons, sorrisos ou outras expressões faciais

Aos 12 meses

Pouco ou nenhum balbucio. Pouco ou nenhum gesto de vai-e-vem, como apontar, mostrar, alcançar ou acenar. Pouca ou nenhuma resposta ao nome.

Aos 16 meses

Poucas ou nenhuma palavra

Aos 24 meses

Muito poucas ou nenhuma frase significativa de duas palavras (sem incluir imitação ou repetição)

Em qualquer idade

  • Perda da fala, balbucio ou habilidades sociais adquiridas anteriormente
  • Evitando o contato visual
  • Preferência persistente pela solidão
  • Dificuldade em entender os sentimentos de outras pessoas
  • Desenvolvimento de linguagem atrasado
  • Repetição persistente de palavras ou frases (ecolalia)
  • Resistência a pequenas mudanças na rotina ou ambiente
  • Interesses restritos
  • Comportamentos repetitivos (bater as asas, balançar, girar, etc.)
  • Reações incomuns e intensas a sons, cheiros, sabores, texturas, luzes e/ou cores

Se as respostas sugerirem que seu filho tem uma alta probabilidade de autismo, consulte o médico do seu filho. Da mesma forma, se você tiver outras preocupações sobre o desenvolvimento de seu filho, não espere. É muito importante fazer uma triagem com médico pediatra e neuropediatra. 


As informações são de autismspeaks.org

quinta-feira, 30 de março de 2023

30 de março: Dia Mundial do Transtorno Bipolar

Photo by Darya Sannikova

O transtorno bipolar, também conhecido como doença maníaco-depressiva, é um transtorno cerebral que causa mudanças incomuns no humor, na energia, nos níveis de atividade e na capacidade de realizar as tarefas do dia-a-dia.

O transtorno bipolar atinge cerca de 4% das pessoas em idade adulta. O número de pessoas diagnosticadas com este quadro pode chegar a 6 milhões de pessoas no Brasil.

Existem quatro tipos básicos de transtorno bipolar:

Transtorno Bipolar I – definido por episódios maníacos que duram pelo menos 7 dias, ou por sintomas maníacos que são tão graves que a pessoa precisa de cuidados hospitalares imediatos. Geralmente, episódios depressivos ocorrem também, tipicamente durando pelo menos 2 semanas. Episódios de depressão com características mistas (com depressão e sintomas maníacos ao mesmo tempo) também são possíveis.

Transtorno Bipolar II – definido por um padrão de episódios depressivos e episódios hipomaníacos, mas não os episódios maníacos desenvolvidos acima.

Desordem ciclotímica (também chamada ciclotimia) – definida por numerosos períodos de sintomas hipomaníacos, bem como inúmeros períodos de sintomas depressivos de pelo menos 2 anos (1 ano em crianças e adolescentes). No entanto, os sintomas não atendem aos requisitos diagnósticos para um episódio hipomaníaco e um episódio depressivo.

Outros Transtornos Bipolares e Relacionados Especificados e Não Especificados – definidos por sintomas de transtorno bipolar que não correspondem às três categorias listadas acima.

Principais sintomas

A mania bipolar e hipomania bipolar provocam sentimentos de euforia que são muito desproporcionais em relação a qualquer evento positivo. Os principais sintomas incluem:

1. Mania Bipolar

O episódio maníaco apresenta sintomas que incluem:

  • Euforia excessiva;
  • Autoestima inflada ou mania de grandeza;
  • Falar excessivamente;
  • Pensamento acelerado, com fuga de ideias;
  • Muita distração;
  • Maior agitação ou energia para realizar atividades;
  • Perda do controle sobre suas atitudes;
  • Envolvimento em atividades arriscadas e que normalmente exigem cautela, como investimentos financeiros insensatos, fazer compras desenfreadas ou apetite sexual muito aumentado, por exemplo;
  • Pode haver irritabilidade ou agressividade;
  • Pode haver delírios ou alucinações.

Para o evento ser caracterizado como mania, é necessário haver pelo menos 3 sintomas, que devem durar pelo menos 4 dias e persistir a maior parte do dia, ou nos casos em que são tão graves a ponto de necessitar de internação hospitalar.

Estes sintomas são tão intensos que costumam atrapalhar as relações sociais e profissionais da pessoa com a doença, sendo considerada uma emergência médica e social, que deve ser tratada o mais breve possível.

2. Hipomania bipolar 

Os sinais e sintomas de um episódio de hipomania são semelhantes aos da mania, no entanto, são mais leves. Os principais incluem:

  • Euforia ou humor elevado;
  • Maior criatividade;
  • Redução da necessidade de sono, já estando descansado após dormir cerca de 3 horas, por exemplo;
  • Falar mais que o normal ou tagarelar;
  • Pensamento acelerado;
  • Fácil distração;
  • Agitação ou aumento da energia para realizar atividades;
  • Realizar facilmente atividades que exigiriam maior cautela, como compras desenfreadas, investimentos financeiros arriscados e aumento do apetite sexual.

Os sintomas de hipomania não costumam provocar prejuízos às relações sociais e profissionais, e também não causam sintomas como delírios ou alucinações, além de costumarem durar pouco tempo, cerca de 1 semana.

Além disso, eles não são graves o suficiente para necessitar de internação, e em alguns casos, podem até passar despercebidos. Nesses casos, muitos pacientes acabam sendo tratados como tendo apenas depressão, já que a alternância de humor pode não ser detectada. 

Como confirmar

É importante, antes de qualquer outra coisa, ir ao clínico geral para que ele faça avaliações e exames que possam afastar doenças físicas ou situações que provocam sintomas parecidos, como desregulação da tireoide, efeitos colaterais de medicamentos, como corticoides, por exemplo.

O episódio de mania ou de hipomania é identificado pelo psicoterapeuta que ao avaliar os sintomas relatados pelo paciente e/ou por pessoas próximas, o encaminhará para o psiquiatra. Este, após avaliação, indicará as possiblidades de tratamento. O psiquiatra também deve avaliar se os sintomas não são efeitos colaterais de medicamentos, ou do uso de drogas ilícitas, bem como de outras doenças psiquiátricas, como esquizofrenia ou transtornos de personalidade, por exemplo. 

4 dicas de tratamento

1 - Medicação - O tratamento do transtorno bipolar é orientado pelo psiquiatra, feito com medicamentos que atuam estabilizando o humor e em alguns casos, antipsicóticos, para que a pessoa saia da crise.

2 - Psicoterapia - A psicoterapia feita pelo psicólogo é necessária para ajudar o paciente e a família a lidar com as alterações do humor. 

3 - Prevenção - A prevenção das crises deve ser realizada constantemente com uma alimentação saudável, livre de açúcar, álcool, gordura, cafeína e embutidos; a pratica de atividades físicas é indispensável, bem como a prática de atividades artísticas, esportivas, meditação, lazer e entretenimento. 

4 - Grupo de apoio - É super indicado que a pessoa tenha a consciência de que necessita criar o seu grupo de apoio: o psicoterapeuta, o psiquiatra, pessoas em quem confia e grupos de pares, ou seja, de pessoas que também convivem com o mesmo diagnóstico. Atualmente as redes sociais oferecem grupos virtuais de pessoa com transtornos bipolar. Eles são muito importantes para o amparo e compartilhamento de experiências. 


OBS. Este artigo é apenas para informação. Não substitui a visita profissional e tampouco tem a intenção de diagnosticar e/ou oferecer soluções. 

Da Redação de IPAM - Instituto de Pesquisas Arthur Miranda


domingo, 1 de janeiro de 2023

Janeiro Branco: porque o desejo de viver precisa ser maior do que a angústia

Levamos por toda a vida as angústias da infância, somadas aos problemas que vão surgindo. Como se isso não bastasse, ainda existem os fatores psicofísicos + socioculturais. Assim, estágios constantes de alegria e de resiliência não são coisas que dependem de uma tomada de decisão do tipo: ‘a partir de hoje serei mais resiliente e alegre’. 

Da mesma maneira, estágios recorrentes de tristeza e das dores de existir, não são opcionais, como se a pessoa acordasse e decidisse que naquele dia ficará triste. Isto explica, por exemplo, porque mesmo tendo razões para estar feliz, a pessoa se sente vazia. Ou mesmo passando por tragédias, a pessoa se comporta corajosa e otimista. 

 A boa saúde mental ressignifica as leituras de mundo Por estas razões, se faz necessária, a prática do amor próprio na compreensão e aceitação de quem é você biológica, mental, emocional e socialmente. Só depois desse encontro consigo mesmo, é que se pode ressignificar às leituras de seu mundo. 0 que é sentido precisa ser verbalizado. 

O que não é verbalizado vira sintoma. E os sintomas não são silenciosos. Fazem uma algazarra na mente, no coração, no espírito e depois adoecem o corpo. Todo o corpo. Porque não há saúde física sem saúde mental. Se a saúde mental for tratada como prioridade desde à infância, com certeza, o desejo de viver, e não a angústia, seria uma latência. 

 Janeiro Branco, mês da saúde mental A campanha Janeiro Branco deste ano busca conscientizar as pessoas sobre a saúde mental e cruzar um paralelo entre questões relacionadas à mente e à pandemia do novo coronavírus. 

 De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o segundo país nas Américas com maior número de pessoas depressivas, cerca de 5,8% da população. O percentual fica atrás apenas dos Estados Unidos, com 5,9%. O Brasil também é o país com maior prevalência de ansiedade, no mundo todo. Cerca de 9,3% da população diagnosticada com o transtorno. Em 2021, o Janeiro Branco realiza sua oitava edição. 

A ideia da campanha surgiu em 2014, através de um grupo de psicólogos da cidade de Uberlândia, em Minas Gerais. O mês e a cor foram escolhidos como uma alusão ao começo do ano, que representa uma ‘página em branco’ a ser preenchida durante o novo ano que se inicia. Banalizando assim o sofrimento de quem verdadeiramente está vivenciando dor psíquica. A saúde mental como desculpa para aglomerações. 

É realmente inconcebível que pessoas irresponsáveis usem a saúde mental como pretexto para quebrar o distanciamento social e frequentarem festas, praias, clubes, etc. Elas se valem da banalização da saúde mental em detrimento de quem realmente está doente. É pouco provável que alguém que esteja em franco sofrimento psíquico saia de casa para socializar. É muito grave isso. Pessoas em sofrimento psíquico precisam ser tratadas como o mesmo respeito que se trata alguém com uma doença física grave. 

Ninguém diz que precisa quebrar o distanciamento social porque se ficar em casa terá câncer. Porque ninguém quer ter câncer. Por outro lado, dizem que se ficar em casa ficarão deprimidos, conquanto acham que a depressão é um resfriado que cura com chá e aspirina. A depressão é uma doença grave que pode levar ao suicídio. Todas as pessoas que têm depressão cometem suicídio? Não. Mas todas as pessoas que cometeram suicídio, apresentavam um tipo de sofrimento psíquico. Então, a saúde mental precisa ser vista como utilidade pública e tratada como prioridade desde à infância. 

 Texto de Clara Dawn, escritora, pesquisadora, psicanalista, psicopedagoga, especialista em prevenção ao suicídio.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Maconha pode desencadear a esquizofrenia quando usada na adolescência



Maconha todo mundo sabe o que é. Mas se você não é um psiquiatra ou um esquizofrênico, vale explicar do que se trata a esquizofrenia. 

Trata-se de um distúrbio mental que leva a sintomas como alucinações, delírios, alterações de pensamento e perda da realidade. De certa forma, é como um baque do efeito da maconha, só que incurável. É como entrar numa balada eletrônica (com luzes de neon, gritos, risadas, visões de acéfalos e tals)e não sair nunca mais dali.



Os caras que vivem pra estudar essas coisas, afirmam que fumar maconha, uma vez por semana, é o suficiente para desencadear os surtos psicóticos que levam a esquizofrenia em adolescentes que têm essa tal de predisposição genética pra coisa. (Fica ligado, predisposição genética não aparece em exame de sangue).

Escuta essa, irmão: pesquisadores na Holanda, reuniram 95 usuários da maconha, dos quais 48 eram pacientes com eram adolescentes entre 14 e 24 anos. Durante seis dias, a missão dos voluntários era anotar o que estavam fazendo e como se sentiam, 12 vezes por dia. Os resultados mostraram que os adolescentes eram mais sensíveis do que os adultos aos efeitos da alucinógenos da cannabis.

O problema é que o cérebro do adolescente está em formação (fase de poda, como dizem os psiquiatras) e realmente sofre danos irreversíveis com o uso constante da maconha, e estes podem desencadear doenças mentais incuráveis, como a esquizofrenia.

Qualquer outra droga tem os efeitos negativos interrompidos quando a pessoa para de usar, menos a maconha. Os danos que ela causa ao cérebro, já disse, são irreversíveis e abrangentes. E se, por simples ignorância, o adolescente, mesmo depois de um surto psicótico, continuar usando a maconha: seus quadros psicóticos se agravam, suas alucinações são mais frequentes e o tempo de recuperação e reação a terapias e medicamentos aumenta drasticamente. Em suma, quando o adolescente predisposto geneticamente a esquizofrenia fuma um cigarro de maconha, é como se fumasse uns cinco de uma vez só. Pode ser até econômico financeiramente falando, mas a viagem ao fundo do poço, para eles, é certamente muito mais profunda e subida ? (...) Tem gente que consegue viver com a loucura. Você quer pagar pra ver?


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Usar maconha na adolescência pode causar danos cerebrais: pesquisa da Harvard Medical School (EUA)



Fumar maconha ocasionalmente pode danificar estruturas centrais do cérebro, de acordo com um novo estudo divulgado pelo site Daily Mail. Segundo a pesquisa, usar a droga apenas uma ou duas vezes por semana pode afetar o tamanho e o formato de duas regiões cerebrais importantes, ligadas à emoção e à motivação.

Os estudos anteriores, realizados com pessoas que fazem uso excessivo da maconha, mostraram que a droga pode de fato “reestruturar” o cérebro. No entanto, este é o primeiro experimento que mostra o efeito com usuários ocasionais. Especialistas da Harvard Medical School e da Northwestern University, de Chicago (EUA), analisaram a ressonância magnética de 20 usuários de maconha, com idade entre 18 e 25 anos. Eles compararam as imagens às de cérebros de pessoas que nunca fizeram uso da droga.

As maiores diferenças foram notadas em duas áreas: o núcleo accumbens e a amígdala, que são associados à motivação, às emoções e ao vício. No cérebro dos usuários, o núcleo accumbens apareceu muito maior, enquanto a amígdala se mostrou deformada. Segundo o professor Hans Breiter, o estudo teve o desafio de desmitificar o conceito de que o uso ocasional da droga não está associado a consequências ruins. “As pessoas acham que o uso recreativo não causa nenhum problema, mas nossos dados mostram que não é o caso”, reforça.

A co-autora do estudo, Anne Blood, de Harvard, diz que estas áreas cerebrais são de grande importância. “Elas formam uma base para que você avalie os aspectos positivos e negativos das coisas e tome decisão sobre elas”, pontua. Os resultados abrem novos caminhos para pesquisas que buscam examinar as ligações entre o uso de maconha e as doenças mentais.

Já os pesquisadores da Vanderbilt University, nos Estados Unidos, concluíram que a maconha é capaz de regular a ansiedade e também a forma como o corpo reage a ela. Os cientistas descobriram que existem receptores através dos quais a erva exerce seus efeitos em um centro emocional do cérebro.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Maconha: A erva daninha das instituições - por José Maria e Silva - Jornal Opção Goiás

Fonte: Jornal Opção
Maconha: A erva daninha das instituições
A absolvição de um traficante que transportava droga no estômago para dentro de um presídio mostra que a ação da maconha no organismo pode ser menos perigosa do que seu efeito nas instituições
Abir Sultan Israel OutT/EPA
Demagogia do Judiciário deve levar à liberação da maconha



















“O pacote é para saldar dívida
de droga de um cara que vai
morrer no pavilhão se não fizer o pagamento até as cinco da tarde.”
Drauzio Varella, em “Carcereiros”

*José Maria e Silva
Historicamente, o Judiciário brasileiro sempre foi visto como uma torre de marfim, composto por juízes absolutamente alheios às misérias do povo. A exemplo do antigo lavrador, que ao entrar na sala do patrão amarfanhava o chapéu com as mãos calosas mantendo os olhos humildes nas alpercatas corroídas, também o cidadão comum se encolhe diante da toga, suando sob o terno desconfortável que lhe serve de passaporte no tribunal. As vestes sisudas e a linguagem empolada da Justiça são mais do que suficientes para intimidar a gente simples, que se revolta com esses ritos, por ver neles uma explícita opção preferencial pelos ricos.

Mas o brasileiro que lastimava a arrogância da magistratura nativa era feliz e não sabia. O Judiciário finalmente está saindo de sua torre de marfim – não para fazer Justiça dentro da lei, atendendo aos anseios da maioria do povo, mas para fazer demagogia com a própria toga, cedendo aos gritos da turba minoritária que se recusa a sair das ruas. Todos os dias pelo Brasil afora, em nome de um direito que não está nas leis mas apenas na ideologia dos magistrados, sentenças judiciais cerceiam o direito de ir e vir de todos os cidadãos em nome da liberdade de manifestação de uma minoria, que, estimulada pelo próprio Judiciário, perdeu a noção de limites. Que o digam as cotidianas depredações do patrimônio público e privado em todo o País, especialmente a queima de ônibus, que já se tornou uma epidemia urbana.

Um exemplo de decisão que subverte as leis e inverte valores foi proferida em Brasília em 9 de outubro do ano passado, mas só agora se tornou nacionalmente conhecida. O juiz substituto Frederico Ernesto Cardoso Maciel, da 4ª Vara de Entor­pe­centes do Distrito Federal, por entender que a maconha não deveria estar incluída entre as drogas ilícitas, absolveu o réu Marcos Vinicius Pereira Borges, que havia sido preso em flagrante ao tentar entrar no Com­plexo Penitenciário da Papuda com 52 porções da droga no estômago. O Ministério Público recorreu da decisão e, na quinta-feira, 30, os juízes da Terceira Turma do Tribunal de Justiça do Distrito Federal reformaram a decisão de primeira instância, condenando o réu a 2 anos e 11 meses de detenção, em regime semiaberto, além de multa.

Mas o fato de ter sido revogada em segunda instância não torna menos grave a decisão do juiz singular. Mesmo porque não se trata de um ato isolado, mas de um sintoma da época. A maconha – po­dem anotar – acabará sen­do legalizada pelo Supremo Tri­bunal Federal (STF), sem passar pela aprovação de lei no Con­gresso, que seria o correto. O uso de drogas envolve fatores sociais e humanos de extrema complexidade, que não podem ser decididos apenas por 11 cabeças co­roadas. Mas, pelo que se percebe da plêiade de intelectuais influentes que defendem a maconha, começando pelo ex-presidente Fernando Henrique Car­do­so, a tendência é que o Supremo faça como o juiz de Brasília e considere que fumar maconha é um sagrado direito constitucional. E o que é mais grave: a maconha é apenas o pretexto – o objetivo é legalizar todas as drogas, inclusive drogas pesadíssimas como o crack, que, aliás, já foi legalizado na prática. Se isso ocorrer, ação da maconha no organismo será menos daninho do que seu efeito nas instituições.

Com a maconha no estômago

Para absolver o homem que tentou entrar com maconha no presídio da Papuda, o juiz Frederico Maciel reconhece que a conduta praticada e confessada pelo acusado, além de comprovada materialmente, “parece se adequar” àquela descrita na Lei 11.343, de 23 de agosto de 2006, que trata da política nacional sobre drogas, especificamente os artigos 33, que trata do tráfico de en­torpecentes, e o artigo 40, que agrava a pena quando o tráfico é realizado nas dependências ou imediações de escolas, hospitais, presídios etc. “Contudo, no meu entender, há inconstitucionalidade e ilegalidade nos atos administrativos que tratam da matéria”, afirma o juiz em sua decisão, investindo contra a portaria da Anvisa (Agência Na­cional de Vigilância Sanitária) que serve de regulamentação à referida lei.

Escreve o magistrado: “Com efeito, o art. 33, caput, da Lei 11.343/06 é classificado pela doutrina do Direito Penal como norma penal em branco o que, em brevíssima síntese, é aquela que depende de um complemento normativo, a fim de permitir de forma mais rápida a regulamentação de determinadas condutas”. Ora, a regulamentação de uma lei não tem nada a ver com pressa, mas com esclarecimento. Se uma norma fala genericamente em “drogas”, como é o caso da lei em questão, só se pode saber se alguém é traficante esclarecendo dois pontos: que substância ele está transportando e se essa substância é considerada droga ilícita à luz de outros documentos oficiais, já que a própria lei não especifica quais são as drogas proibidas. O parágrafo único do artigo 1º da Lei 11.343 dei­xa isso claro: “Para fins desta Lei, consideram-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da União”.

Em seguida, o magistrado afirma: “O Ministério da Saúde, por meio da Portaria 344/1998, com o objetivo de complementar a norma do art. 33, caput, da lei 11343/06, estabeleceu um vastíssimo rol de substâncias sujeitas à controle e, sem qualquer justificativa constante na referida portaria, na lista F, proibiu, entre outras, o THC”. Registre-se que essa crase antes de “controle” é uma das muitas incorreções gramaticais que aparecem na curta sentença de apenas duas páginas. Mais grave, ainda, são os equívocos jurídicos da sentença, começando pelo fato de que o juiz atribui ao Ministério da Saúde uma portaria que é da Anvisa. Apesar de vinculada ao Minis­té­rio da Saúde (instância também política), a Anvisa é ou deve ser exclusivamente técnica. Trata-se de uma agência reguladora com independência administrativa, autonomia financeira e estabilidade de seus dirigentes.

Drogas e consenso científico

Além disso, como é que a Portaria 344, de 12 de maio de 1998, editada no governo Fer­nando Henrique Cardoso, poderia ter como objetivo regulamentar uma lei que só seria promulgada oito anos depois, em 23 de agosto de 2006, em pleno governo Lula? Primeiro, a lei, depois, sua regulamentação, e não o contrário, obviamente. Por não atentar para essas datas, apesar de citá-las como apêndices das normas, é que o juiz acusa de ser discricionária a portaria que elenca as drogas ilícitas, acreditando que a listagem das drogas foi feita para regulamentar a lei, quando, na verdade, as normas da Vigi­lância Sanitária devem atender, primeiramente, o consenso científico em torno da matéria. São como as portarias do Conselho Federal de Medicina, que se enquadram no arcabouço legal do País, mas dispõem de autonomia técnico-científica; afinal quem define a etiologia de uma doença e a enquadra na CID (Clas­sificação Internacional de Doenças) não é o Legislativo, mas a comunidade médica.

O preâmbulo da Portaria 344 deixa isso claro ao informar que as normas por ela estabelecidas têm origem, entre outras fontes, na Convenção Única sobre Entor­pe­centes, de 1961, na Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, e na Convenção Contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas, de 1988. Desconsiderando todo esse aporte técnico-científico, o juiz tratou a portaria da Anvisa como um ato arbitrário, sem pé nem cabeça: “O ato administrativo, em especial o discricionário restritivo de direitos, diante dos direitos e garantias fundamentais e também dos princípios constitucionais contidos no art. 37 da Constituição da República de­vem ser devidamente motivados, sob pena de permitir ao Admi­nis­trador atuar de forma arbitrária e de acordo com a sua própria vontade ao invés da vontade da lei”. (Re­pa­rem na falta da vírgula depois de “Re­pública” e no erro de concordância, pois o ato administrativo, sin­gular, é o sujeito do verbo “dever”.)

Com base nessa premissa, o juiz afirma: “A Portaria 344/98, indubitavelmente um ato administrativo que restringe direitos, carece de qualquer motivação por parte do Estado e não justifica os motivos pelos quais incluem a restrição de uso e comércio de várias substâncias, em especial algumas contidas na lista F, como o THC, o que, de plano, demonstra a ilegalidade do ato administrativo. Sem motivação, tal norma fica incapaz de poder complementar a norma penal do art. 33, caput, da lei 11343/06”. Ora, a referida norma não é mero ato administrativo que restringe direitos: ela é o “Regulamento Téc­ni­co sobre Substâncias e Me­di­ca­mentos Sujeitos a Controle Es­pe­cial”. Todos os remédios controlados são também regulamentados por essa portaria, que tem 110 artigos e vários apêndices; por isso, é um absurdo um juiz dizer que a mes­ma “carece de qualquer motivação”, ao mesmo tempo em que a acu­sa de não justificar a inclusão das substâncias em sua lista, como se fosse possível – e necessário – re­produzir numa portaria os tratados científicos sobre cada psicotrópico.

Desastre lógico e gramatical

Mas o juiz Frederico Maciel não se contenta em querer saber mais sobre psicotrópicos do que os técnicos da Anvisa – ele também se arvora a filosofar. E incorre num desastre lógico e gramatical. Eis o que escreve: “Ademais, ainda que houvesse qualquer justificativa ou motivação expressa do órgão do qual emanou o ato administrativo restritivo de direitos, a proibição do consumo de substâncias químicas deve sempre atender aos direitos fundamentais da igualdade, da liberdade e da dignidade humana. Soa incoerente o fato de outras substâncias entorpecentes, como o álcool e o tabaco, serem não só permitidas e vendidas, gerando milhões de lucro para os empresários dos ramos, mas consumidas e adoradas pela população, o que demonstra também que a proibição de outras substâncias entorpecentes recreativas, como o THC, são fruto de uma cultura atrasada e de política equivocada e violam o princípio da igualdade, restringindo o direito de uma grande parte da população de utilizar outras substâncias”.

Reparem outra vez na concordância, aliás, na discordância: o magistrado escreve “são fruto de uma cultura atrasada”, sendo que o sujeito dessa frase é “a proibição”. Além disso, a frase “milhões de lucro para os empresários dos ramos” não é digna da pena de um magistrado; quando muito caberia numa redação do Enem. Outra afirmação desrespeitosa é dizer que o álcool e o tabaco são substâncias entorpecentes “consumidas e adoradas pela população”. Segundo o Relatório Bra­sileiro sobre Drogas de 2010, editado pela Presidência da Re­pública, 18,4% dos brasileiros relataram consumo de tabaco no mês; 19,2% no ano e 44% na vida. Já o consumo de álcool foi de 38,3% no mês, 49,8% no ano e 74,6% na vida. Ou seja, não se pode dizer que a maioria da população brasileira consome e adora essas drogas, mesmo porque até muitos bêbados e fumantes não adoram seus respectivos vícios: sabem que se trata de um mal, apenas não conseguem largá-los.

O juiz considera que quem não usa maconha é culturalmente atrasado e oferece um novo conceito de igualdade, que, para ele, é o direito de poder usar todas as drogas. Também faz uma inegável apologia da substância ativa da maconha: “O THC é reconhecido por vários outros países como substância entorpecente de caráter recreativo e medicinal, diante de seu baixo poder nocivo e viciante e ainda de seu poder medicinal para a saúde do usuário, sem mencionar que em outros o seu uso é reconhecido como parte da cultura”. Ora, senhor juiz, que país legalizou a maconha por reconhecer “seu poder medicinal para a saúde do usuário?”. Todo país que legaliza a maconha não o faz por razões medicinais, mas por pragmatismo: dos males o menor, acreditam, ao comparar o uso da droga com o custo para combatê-la.

Além disso, nenhuma substância entorpecente é, em si mesma, de caráter recreativo, como o magistrado afirma a respeito da maconha. Algo que modifica funções do cérebro não pode ser tratado como brincadeira. Até mesmo o tabaco e o álcool, drogas legais, podem gerar dependência e crise de abstinência. O caráter recreativo não é da droga, mas do uso. Se o sujeito fuma um ou outro cigarro só em festas, para acompanhar os amigos, ele faz um uso recreativo da droga; mas se é um fumante inveterado que acende um cigarro no outro e não abandona o vício nem por recomendação médica, então é ele um dependente, para quem o tabaco não é passatempo, mas vício. É claro que há drogas que geram mais dependência, como o crack e o tabaco, e outras que geram menos dependência, como a própria maconha. Mas uma droga leve, dependendo da intensidade do uso, pode se tornar pesada.

Males que a maconha provoca

O opúsculo “Drogas Psi­co­tró­picas”, do Cebrid (Centro Brasi­lei­ro de Informações sobre Dro­gas Psicotrópicas), afirma que há certo exagero sobre os aspectos maléficos da maconha e destaca seus efeitos medicinais no combate a náuseas e vômitos motivados pela medicação anticâncer e também na epilepsia. Mesmo assim, o informativo deixa claro que a maconha tem efeitos perniciosos, afetando a noção de espaço e de tempo e especialmente a memória de curto prazo. “Sob a ação da maconha, a pessoa erra grosseiramente na discriminação do tempo, tendo a sensação de que se passaram horas quando na realidade foram alguns minutos; um túnel com 10m de comprimento pode parecer ter 50 ou 100m”, afirma o Cebrid, que recomenda às pessoas sob efeito de maconha não realizarem tarefas que dependam de “atenção, bom senso e discernimento”, como dirigir carro e operar máquinas.

Ainda sobre a maconha, o Cebrid também alerta: “Aumen­tando-se a dose e/ou dependendo da sensibilidade, os efeitos psíquicos agudos podem chegar até a alterações mais evidentes, com predominância de delírios e alucinações”. Já em 1845, o psiquiatra francês Moreau de Tors (1804-1884) associou o uso da maconha à ocorrência de sintomas psicóticos. Em 1987, o médico sueco Sven Andréasson e sua equipe publicaram uma pesquisa com 45.570 militares, ao longo de 15 anos de acompanhamento, e chegaram à conclusão de que o uso pesado da maconha (50 ocasiões nesse período) foi relacionado a um risco seis vezes maior de desencadeamento da esquizofrenia em relação aos não usuários.

A maconha pode sim causar dependência e pesquisa do psiquiatra britânico Stanley Zammit (no detalhe)
com mais de 50 mil pessoas constatou que o uso da erva aumenta o risco de desenvolver esquizofrenia

Como as conclusões desse estudo foram questionadas, o psiquiatra britânico Stanley Zammit fez uma pesquisa com 50.087 indivíduos chegando à mesma conclusão da pesquisa anterior – o uso de maconha está associado a um risco maior de desenvolvimento da esquizofrenia. Poste­rior­mente, em artigo publicado na revista “The Lancet”, em ju­lho de 2007, Zammit, juntamente com outros pesquisadores, fez uma revisão sistemática das pesquisas sobre o assunto e corroborou os resultados de pesquisas anteriores: “Podemos concluir que agora existe evidência suficiente para alertar os jovens que o uso de cannabis pode aumentar o seu risco de desenvolver uma doença psicótica mais tarde na vida”.

Dando de ombros para o conhecimento acumulado de psiquiatras, bioquímicos e outros cientistas que estudam os efeitos das drogas psicotrópicas, o juiz prefere se apegar a decisões políticas de países que liberaram a maconha e até à opinião do ex-presidente Fernando Henri­que Cardoso, citado como autoridade em sua sentença, apesar de não lhe mencionar o nome. “Não é por outro motivo que os estados americanos da Califórnia, Wa­shington e Colorado e os Países Baixos, dentre vários outros, permitem não só o uso recreativo e medicinal da droga como também a sua venda, devidamente regulamentada, e outros países permitem so­mente o uso, como Espanha, dentre outros, e o Uruguay está praticamente a ponto de, a exemplo desses ou­tros entes do Direito Interna­cio­nal, regulamentar a venda e o uso do THC”, afirma o magistrado.

Ora, se a maconha fosse tão inofensiva como acredita o juiz, por que razão apenas alguns Estados norte-americanos a liberaram e por que em todos os locais em que isso ocorreu tenta-se controlar sua venda, inclusive na Holanda e no Uruguai (que não se escreve com “y” num texto em português)? O próprio juiz manda incinerar a droga apreendida no final de sua sentença, numa prova de que, no íntimo, ele sabe que sua decisão é problemática. Ocorre que o ativismo judicial, além de querer tomar o lugar do parlamento, também se arvora a ser o feitor do povo brasileiro, a quem acusa de ter uma “cultura atrasada”. Aliás, o juiz Fre­derico Maciel – que é bem pago por esse povinho de “cultura atrasada” – faria mais pelo avanço de nossa cultura se cuidasse melhor do idioma de Vieira, Eça e Machado.

Todavia, ainda que se reconheça que a maconha pode ser usada de forma recreativa, é óbvio que o caso julgado pelo juiz jamais poderia ser considerado dessa forma. O que pode haver de recreativo no ato de engolir 52 poções de maconha para depois vomitá-las dentro de um presídio? Sem contar que esse “aviãozinho” só poderia estar a serviço de um traficante com muito poder na cadeia. Justamente o tipo de traficante que cobra com a morte as dívidas de drogas ou então comuta a pena capital em pena sexual, exigindo que a mulher, a irmã ou a filha do viciado inadimplente pague com o próprio corpo a vida imprestável do pai. Talvez seja isso o que se possa considerar o “caráter recreativo da maconha” – pela ótica de um traficante, claro, jamais pela ótica de um juiz.

(Matéria publicada no jornal Opção - Goiânia - Goiás em 02/02/14).


* José Maria e Silva é jornalista. Articulista do jornal Opção em Goiânia Goiás. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Segunda entrevista com Arthur Miranda - Adicção, Aceitação, Recuperação (Em memória)

Entrevista: Arthur Miranda fala sobre a Adicção, Aceitação e Recuperação
(Perguntas referentes aos 12 passos do NA durante o período de internação de junho a agosto de 2013)


Em memória de *Arthur Miranda
(1993 * 2013)

NAO que a doença da adicção representa para você?

AM – Julgo essa doença de forma complexa, por representar parte da minha vida e de meu ser. Porém em recuperação consigo enxergar os malefícios que ela causa em minha vida integral. Essa doença me faz deixar de ser eu mesmo e regredir perante os meus princípios. Essa doença afeta todos à minha volta, desde a minha família aos meus amigos. Por causa dela os lugares que frequento e o meus hábitos precisam ser restringidos: por causa dela tenho que deixar de ir a certos lugares e abandonar muitos hábitos. De todos os aspectos negativos da doença, o pior é que perco a noção entre o que “certo” ou o que “errado” e faz-me hesitar perante atitudes boas e induz-me às más.

NA – Sua doença está ativa ultimamente? De que maneira?

AM – Faz cinco meses e 10 dias que estou limpo e sinto a minha doença estacionada. Ela só permanece ativa porque eu continuo fumando cigarros. Dessa maneira minha doença permanece gélida e imóvel, porém quando fumo cigarro sinto como se estivesse afastando-me da presença de Deus, da minha recuperação. Mas quando eu estava em estágio de surto psicótico, imaginava que o ato de fumar cigarros  ajudava a espantar os demônios de perto de mim.

NA – Como você se comporta quando está obcecado por algo? Os seus pensamentos seguem um padrão?

AMSó me sinto obcecado por algo quando estou na adicção ativa. Essa obsessão é pela maconha. Pois sinto ao usá-la que possuo poderes e o principal deles é o de ler pensamento. Porém eu não tenho esse poder, mas o que acontece, quando uso,  é que ouço vozes e não sei se são de pessoas ou de espíritos. Daí, sinto que sou enganado por todos em minha volta. Estou seguindo agora um caminho reto e pensando se tudo isso é verdade ou coisa da minha mente... A certeza que tenho é que eu não quero mais usar maconha, pois ela me faz escutar essas malditas vozes dia e noite sem parar.

NA – Você age sem considerar as consequências? Age compulsivamente quando ‘vontades’ lhe ocorre ao pensamento?

AM – Não considero que eu aja compulsivamente, pelo fato de que para recair me testei  e por umas cinco vezes andei com pessoas que usavam droga perto de mim. Até que eu caí no auto-engano novamente e usei mais duas vezes. Ultimamente tenho agido compulsivamente pelo cigarro. Gostaria de parar mas por enquanto não consegui. Repito que não agi compulsivamente quando me veio a abstinência e o pensamento de recair: pensava incessantemente nas consequências e elas surgiram de imediato quando recaí. E logo no primeiro cigarro de maconha voltei a escutar vozes. As mesmas que eu escutara no primeiro surto.

NA – O aspecto egocêntrico provocado pela doença da adicção afeta a sua vida e a vida das pessoas ao seu redor?

AM – A pergunta deixa explicito que a doença nos deixa egocêntricos, pois a medida que ela  progride deixando nossas vidas incontroláveis, na maneira que chegamos ao fundo do poço por usar a droga e por viver para usar. Afeta o nosso físico, o mental e o espiritual de uma forma completamente insana. Com o uso excessivo da maconha eu estava caquético, com os olhos fundos, tinha dificuldade de fazer com perfeição e agilidade as coisas mais simples da rotina doméstica. Minha mãe não dormia, pensando no que o filho poderia estar fazendo: se ele estava bem, se estava se alimentando direito... No auge de meu uso deixei de conversar com o meu pai e há muito tempo não tinha  diálogo com a minha irmã. No dia 30 de dezembro de 2012 foi a última vez que usei maconha – depois o surto – a primeira internação e a liberdade. Desde então passei cinco meses e vinte sete dias limpo, frequentando o NarAnôn. Conheci a literatura do grupo e com ela me identifiquei. Assim comecei a servir a irmandade, quando, nas quartas-feiras, era o secretário. Com a recaída no dia vinte e sete de junho de 2013 e outra vez em surto, fui internado no dia trinta desse mesmo mês. Presumo que em recuperação eu deixarei de escutar as vozes que me atormentam e poderei dar alegria a minha família e posso ser um exemplo para mim mesmo: voltar a faculdade e ser o melhor aluno da turma.

NA – Como a doença lhe afetou física, mental, emocional e espiritualmente?

AM – Como disse anteriormente, a doença da adicção me deixou muito magro, olhos fundos, a minha pele estava seca e os meus cabelos perderam o brilho. Eu não conseguia fazer exercícios físicos, pois meu corpo se achava debilitado e preguiçoso. Afetou mentalmente quando o uso constante levou-me ao surto psicótico  e nele acreditei que podia: ler pensamentos; enviar e receber pensamentos como imagens e frases; ocultar pensamentos durante o uso da maconha para não ser descoberto; destruir e reconstituir cabeças; curar pessoas e animais e tantos outros. Lutei com isso um bom tempo, mas hoje, graças a Deus o meu coração está confortado com a ideia de que não tenho poderes especiais. A maneira como a doença me afetou espiritualmente, foi tornando em mim a ideia de que eu transitava num mundo espiritual muito visível: tinha a certeza de ver vultos e ao dormir sentia a obsessão de espíritos. Com as orações que a minha mãe me ensinou, me sentia mais confortado. A maneira como me afetou emocionalmente foi tornando-me insensível a tudo que acontecia a minha volta, ao ponto de que nem os namoros não me satisfaziam mais. Nada me dava alegria. A minha alegria só acontecia sob o efeito da maconha. Fora isso, não me interessava por coisa alguma.

NA – De que forma específica a adicção tem se manifestado recentemente na sua vida?

AM – No começo de 2013 eu estava tomando medicação, pela manhã e a noite. Em abril, o médico achou que poderia tomar só uma vez por dia, pois eu estava muito sonolento. Com isso, às vozes, aos poucos, voltaram. Coisa que me fez pensar que o remédio não estava adiantando nada e decidi que iria voltar a fumar maconha. Queria colocar a prova se o uso da droga agravaria a situação como agravou em dezembro de 2012. Foi dessa maneira que a minha adicção se manifestou recentemente. Agora estou internado e minha doença se encontra estacionada.

NA – Você está obcecado por alguma pessoa, lugar ou coisa? Isso afeta o seu relacionamento com os outros? Isso lhe afeta mental, física, espiritual e emocionalmente?

AM – Só estou obcecado pela minha casa. Não vejo o momento de sair dessa clínica e ir para casa. Poder voltar a minha vida normal: estudar, trabalhar, pois tenho um filhinho para cuidar e dar bom exemplo. Mas essa obsessão não afeta o meu relacionamento com os outros internos, pois eu estou paciente e sei que terei um tempo pela frente de tratamento antes de sair daqui. Em relação as minhas áreas  emocionais, creio que eu tenha conseguido estabilizar meus sentimentos acerca de estar internado numa Casa de Recuperação e estar com Esquizofrenia; fisicamente também estou bem, porque aqui praticamos exercícios físicos todos os dias. Estou ciente dos meus direitos e deveres aqui dentro. Portanto só preciso ficar paciente porque a minha vontade de voltar para casa será almejada no tempo certo.

NA – Você deu desculpas plausíveis, mas inverídicas sobre seu comportamento de usuário? De recaída? Quais?

AM – Não. Não dei desculpas para justificar o uso de maconha e nem para a minha recaída. A minha recaída foi completamente programada por mais de mês. Não queria passar o resto da vida sem ter a certeza de que a culpa por eu ouvir vozes era por causa da maconha que eu gostava tanto. Eu precisava ter certeza de que ao usá-la eu voltaria a surtar. Eu precisa ter essa certeza, entende? Agora tenho essa certeza e sei que se eu recair outra vez, nunca mais sairei desse estado infernal.

NA – Você tem agido compulsivamente, levado por uma obsessão e depois fingido que planejou agir dessa maneira?

AM – Isso condiz com a minha resposta anterior, quando digo que planejei minha recaída. Eu não agi por compulsão em prol de uma obsessão, pois minha adicção estava estacionada. Eu estava tranquilo, sereno, trabalhando, auxiliando a irmandade e fazendo planos para próximo ano. Mas com proximidade do meu aniversário, ocorreu-me essa ideia de recair. Comemorar, como fazia nos tempos de adicção ativa. Se as vozes não tivessem se manifestado outra vez. Acho que voltaria a usar, sim. Porque é insuportável para um maconheiro acreditar que sua droga favorita é tão nociva a sua mente. Só vivendo esse inferno para crer. Estou conformado e confortável quanto a isso. Os doze passos de NA têm me ajudado nessa conformação.

NA – Você culpa outras pessoas pelo seu comportamento?

AM – Não culpo ninguém. A princípio culpei a mim mesmo. Confiro a mim a natureza exata de minhas falhas, pois o quando decidi diminuir a medicação que estava controlando o surto psicótico, voltei a ouvir vozes e fiquei grilado com isso. Pensei que o remédio nunca iria me curar, então se era para ficar doente para sempre, então eu iria voltar a fumar maconha. E com isso comecei a planejar minha recaída.

NA – Como você tem comparado a sua adcção com adicção dos outros? Sua adicção já é suficientemente ruim em si mesma para compará-la com de alguém?

AM – Não. Não comparo o meu sofrimento com o de ninguém, pois como a pergunta já diz, considero a minha dor é suficiente e bastante para que eu a suporte. Os surtos psicóticos me fazem sofrer bastante. Considero que não comparo esse meu fundo de poço com o de ninguém.

NA – De que modo você se comporta diante da realidade da sua adicção?

AM – A única maneira de me comportar em relação a isso, é me mantendo limpo, um dia de cada vez, pois a cada recaída percebo que estou a um passo da loucura.

NA – Como você pode evitar uma recaída?

AM – Não tenho embasamento suficiente, nem dentro da literatura da adicção e recuperação para evitar uma recaída, pois sou rebelde, minha mente é rebelde e eu não consigo controlar isso, controlar todas as reservas que ainda possuo. Apenas tento respeitar a força do vício e com cautela fugir de lugares e pessoas da ativa para não cair na primeira oportunidade que surgir. Apesar dessa consciência da minha fraqueza diante da força do vício, considero minha doença estacionada.

NA – Você está com medo de encarar a sua adicção? Tem medo de que os outros saibam que você é um adicto em recuperação?

AM – Não. Pois já a aceitei e sei que ela é incurável e fatal. Mas não deixarei com que ela me atormente. A deixarei estacionada de um modo que eu possa perceber que a luta contra a drogadicção faz parte de minha vida. Não estou com medo da repercussão da minha realidade, pois se eu não estivesse tranquilo quanto a minha doença eu já teria fugido desta Clínica. Não é fácil estar em recuperação, mas tenho encontrado aqui todo o apoio de que preciso para suportar a verdade da doença e suas consequências.

NA – Você chegou ao fundo do poço? Se sentiu desesperado ao se ver no fundo do poço e por isso se isolou?

AM – Depois de cinco anos usado maconha diariamente, me vi no fundo do poço quando comecei acreditar que as pessoas a minha volta estavam falando de mim e ao constatar que isso não seria possível, pois como todas as pessoas, inclusive desconhecidos, poderiam saber tantas coisas da minha intimidade. Isso me desesperou sim. Chorava muito, escondido no banheiro e me trancava no quarto para tentar dormir e esquecer as audições, mas nem dormir eu conseguia. Após seis meses de recuperação e com a doença estacionada voltei ao fundo do poço quando decidi recair.

NA – Você encara a adicção ativa, no seu caso o uso da maconha, como um problema? Como um mal que precisa ser combatido?

AM – Tive que surtar para ver a adicção ativa como um problema. Antes disso, não a encarava como um mal, pelo contrario, eu tinha a convicção (sem embasamento teórico) de que a maconha não fazia mal algum. Tinha nela uma válvula de escape para os meus problemas e tristezas. Quando descobri que ela era a desencadeadora de meus Surtos Psicóticos, busquei ajuda no Amor Exigente e nos Narcóticos Anônimos -  Foi amor à primeira reunião.

NA – Você se considera impotente diante da sua adicção? Por causa disso já passou por situações embaraçosas?

AM – Sou impotente, primeiramente, a mim mesmo. Como diz a literatura do NA: “um adicto sozinho é má companhia”. Mas minha principal impotência é perante as pessoas e lugares da ativa, porque me sinto bem perto de quem usa ou perto da droga. Mas minha impotência perante a droga torna essa relação impossível. Quando eu me alcoolizava, ficava muito agressivo. Ao ponto de agredir fisicamente os outros. A situação mais embaraçosa foi ter agredido fisicamente minha mãe.

NA – Na fase da adicção ativa você se feria fisicamente? Feria outras pessoas?

AM – No último ano da minha adicção ativa fiquei muito magro, com olheiras, olhos fundos, com a pele seca, cabelo sem brilho. Eu não conseguia fazer atividades físicas, pois sentia-me debilitado: respiração ofegante e o coração disparava ao menor esforço. Por causa do meu egocentrismo,  fazia chantagens emocionais com a minha mãe, com o meu pai e até a minha irmã, para que eles pensassem que eu tinha razões para usar maconha. Com isso, minha mãe sofria muito. Não dormia direito e quando dormia tinha pesadelos. Ela adquiriu um olhar triste e uma aparência sofrida.

NA – Perda de Controle.

AM –  Perdi o controle quando agredi minha mãe fisicamente. Ela me denunciou na Delegacia da Mulher, mas graças ao Programa da Justiça Terapêutica não fui preso. Fui orientado ao tratamento. Perdi controle quando decidi transportar, de Goiânia para Anápolis, 150 gramas de maconha. Se tivesse sido pego, não teria escapado da prisão. Perdi o controle da situação no meu segundo surto. Após a primeira internação, minha doença estava estacionada. Mas a minha rebeldia me fez usar novamente, só para ver se seria mesmo o meu fim. Realmente eu não pude ficar limpo somente por minha própria vontade, apesar de que tentei diminuir o uso no final de 2012, mas já estava num uso tão abusivo que o que me aconteceu, na verdade, para frear o uso foi o surto psicótico: onde estava com síndrome de perseguição, achando que todos queriam me matar e ouvia muitas vozes, eu acreditava que todos tínhamos poderes como ler mentes, enviar e receber pensamentos, imagens e frases. A partir do momento em que fui internado, meu sentimento foi de revolta, mas depois que descobri que essa foi a melhor atitude que minha mãe tomou em relação a mim, pois hoje percebo que com a internação retomei a vontade de viver.  Após ter sido confirmado o surto psicótico, decidi entregar todas as minhas vontades e a minha vida aos cuidados de Deus. Abro mão do uso de drogas e passo a seguir a palavra de Deus fielmente, ao ponto em que Deus se torne a maior força sobre a minha vida. Comporto-me conforme Deus queira, mas ele é o meu poder superior, ele rege sobre todas as coisas na minha vida, existem palavras que eu digo a Ele regularmente: “Agradeço-Te pelo dom da vida, o dom que o Senhor me concedeu hoje e todos os dias, faça-me parar de ouvir as vozes que tanto me atormenta, em nome de Jesus, amém”.

NA – Manipulação.

AM – Eu realmente tenho esse defeito. Quero fazer tudo do meu jeito e para isso arrumo uma maneira de manipular as pessoas a me ajudarem. Quando as coisas não saem como eu planejei, sinto-me desestruturado. Quando algo não sai como pensei é como se eu tivesse feito um grande erro de calculo. Acho difícil lidar com isso. Mas com a terapia estou aprendendo a trabalhar esse comportamento. Agi por vontade própria quando comecei a usar drogas e manipular minha família e meus amigos para conseguir mais. Minha vontade própria afetou minha vida me tornando egocêntrico e fora de controle, pois estava em uso abusivo e não tinha como voltar atras, se não fosse pelo surto psicótico que me aconteceu para me fazer parar de usar drogas. Porém o medo de surtar não me evitou a recaída, mas aprendi com isso que não posso nunca mais usar droga, pois a qualquer momento posso desenvolver o surto psicótico. Com o meu egocentrismo cheguei a não me importar com ninguém, nem com a minha mãe que é a pessoa que nunca desistiu de mim, quando eu chegava em casa que ela abria a porta eu olhava para ela como se ela fosse parte da porta. E com a minha irmã, uma vez eu disse que ela era menos que uma formiga que eu poderia esmaga-la quando eu bem entendesse... dizia isso e não sentia nenhum remorso. 

NA – Rendição.

AM – Não temo a rendição. Já me rendi e estou vivendo em recuperação. Por um período de cinco meses e vinte sete dias não tive um rendição completa, pois desejava uma recaída e não percebia que estava me perdendo no auto-engano e na autossuficiência, mas hoje me encontro em uma rendição completa e estou vivendo em plena e consciente recuperação. Essa rendição é que me convence de que eu não posso mais usar maconha, nem qualquer outro tipo de droga.  Devido aos surtos, tenho certeza de quem em nenhum momento da minha vida poderei retornar ao uso.  Se eu quiser preservar a minha integridade física, mental, espiritual e emocional, terei que morrer limpo.

NA – Sinceramente...

AM – Sinceramente eu não estou pensando em usar droga e nem estou agindo movido pela minha adicção. Estou limpo e já aceitei por completo a realidade da minha doença. Tenho o sentimento de que irei reforçar a minha recuperação e que não recairei mais. Não escondo de ninguém a minha doença. Todos os meus familiares e amigos sabem que frequento o NA e sabem do meu desejo pela recuperação. Eu vejo e valorizo a liberdade que isso traz. Comecei a ser honesto com a minha recuperação quando decidi frequentar o NA. Nada na recuperação me soa estranho, pois já passei por tantas dificuldades até chegar aqui que compreendo que a recuperação é a arte de se contrariar. Portanto, quando ajo de modo a contrariar a minha vontade de usar, estou agindo certo. Estou praticando o princípio da mente aberta: permanecendo internado e aceitando as limitações de minha adicção. Estou conformado em saber que, por causa da adicção, hoje eu possuo uma doença mental. Mesmo sabendo que ela é incurável. Consigo colocar acima de tudo o estacionamento dessa doença e a partir disso tenho conseguido viver plena recuperação e estou disposto a dar o melhor de mim por ela. Vou seguir todas as sugestões dos meus entes e procurarei me manter longe de pessoas e lugares da ativa.

NA - Princípios Espirituais

AM – A minha principal crença é na minha ação em trabalhar a minha fé na minha recuperação e na existência de um Poder maior do que eu. Aceitando que a minha doença é maior do que eu e menor que o Poder Superior. Sendo assim admiti que sou impotente diante da minha adicção. Mente fechada é sinônimo de recaída. Mente fechada é não acreditar que há um poder maior que a gente e que esse poder possa devolver-nos a sanidade. Mente aberta é sinônimo de uma boa recuperação, pois se é capaz de entregar a recuperação ao poder superior. Minha mente está aberta em minha recuperação, pois consegui compreender o tamanho de minha doença e a forma como executarei minha recuperação. Estou mais socialmente comunicativo, estou menos introspectivo, sabendo a hora que devo falar e quando devo ouvir e extraindo o útil de cada coisa que me dizem. Meus pensamentos negativos diminuíram ao ponto de eu poder controla-los quase que completamente. Creio que mais mudanças são possíveis em minha vida, como: perder a mania de perseguição, não ouvir mais as vozes e nunca mais ter surtos psicóticos. Minha fé foi crescendo a partir do momento em que não me senti mais abandonado pelo Poder Superior e com isso eu pude sair do surto mais uma vez. Tenho fé que essa foi a última vez que surtei por causa de drogas. Estou orando todos os dias, coisa que não fazia na adicção ativa. Deus está me tornando uma pessoa mais altruísta e com isso tenho evoluído espiritualmente. Sou um homem sonhador. Deus me fez assim. A partir do momento que descobri que a minha doença não tem cura e a Recuperação Diária e o Trabalho dos Passos são minhas alternativas para eu concretizar os planos de que minha adicção fique estacionada e não mais interfira na realização do meu futuro. Tenho uma reserva, um medo de que quando as coisas voltem ao normal, eu volte ao uso. Esse medo pode interferir na minha fé, mas oro a Deus para vencer isso. Para vencer essa reserva e esse medo, devo frequentar regularmente o N A e buscar aprender com as partilhas entre os adictos em recuperação. Assim posso desenvolver a minha espiritualidade e recuperação diária de modo a espantar os fantasmas da recaída. Tenho procurado a ajuda de um poder maior do que eu, todos os dias desde o momento que comecei a escutar as vozes; tenho entrado em contato consciente com Deus, para que ele devolva minha sanidade, a mesma que eu tinha antes de usar drogas, vou dobrar meus joelhos todos os dias para que eu nunca tenha outra recaída, para que eu nunca mais volte ao meu fundo do poço (que no meu caso foi o surto psicótico). Achei que Deus me punira, com o surto psicótico, devido ao uso exacerbado de maconha. Mas hoje compreendo que Deus é bondoso, um poder superior incapaz de me punir e sim de alertar-me. Quando decido entregar as minhas vontades e a minha vida aos cuidados de Deus, ele age sobre essa decisão. Decidi deixar Deus tomar as minhas vontades e a minha vida para Si, para que Ele me oriente em minha recuperação, mostrando-me como viver, pois decidi que acima de tudo não devo usar drogas nunca mais, através desse despertar espiritual consigo, com os doze passos, admitir que sou impotente perante minha adicção. Demonstrei boa vontade em minha recuperação aceitando meu tratamento por mais que eu estivesse convicto de que as pessoas pudessem ler pensamentos. Não estou lutando contra nenhum aspecto da minha recuperação.

NA – Sanidade

AM – O processo não se limita apenas em sanidade, pois precisamos, primeiramente, passar pelo processo de insanidade para reconhecê-lo, aceita-lo, e enfim resisti-lo. Sanidade é ter o direito de escolher e nessa escolha, escolher ficar limpo; é ter a escolha de frequentar os lugares da ativa e não frequentar; é ter a escolha de conversar sobre os hábitos da ativa e não conversar... pois eu perco a sanidade somente quando estou próximo dessas coisas e por fim acabo usando droga e é aí que tenho a insanidade de acreditar que o mundo gira ao meu redor. O caminho para a sanidade é um processo a partir do momento que se torna gradual o caminho entre recaídas e recuperação. Devemos ter um despertar espiritual para aceitar a doença e coloca-la nas mãos de Deus junto com a natureza exata de nossas fraquezas. O despertar espiritual é iminente para o retorno à sanidade. Todas às minhas expectativas quanto a voltar à sanidade são realistas, pois creio que em recuperação, os 12 passos me ajudarão a devolvê-la por completo e estou convicto de que isso tem um tempo certo para cada pessoa e nunca acontece da noite para o dia. A forma como meu poder superior está agindo em minha vida é, principalmente, devolvendo-me a sanidade mental. Venho a acreditar que a minha vontade e a minha vida foram entregues nas mãos de Deus (me comunico com Deus todos os dias, da maneira que eu O compreendo) Ele se comunica comigo em meus bons pensamentos, em meus sonhos, quando estou tendo um diálogo com alguém, ou quando estou próximo de animais. Meu sentimento em relação ao meu poder superior é de gratidão, pois a cada dia que passa Ele vêm devolvendo-me a sanidade necessária para compreender o Seu agir em minha vida. Agradeço a Ele todos os dias por ter me concedido o dom da vida.

NA – Se considera importante para as outras pessoas?

AM – Sou importante para a minha família, pois quando falei que para a minha mãe que eu tinha recaído, ela procurou a ajuda psiquiátrica imediatamente, porque percebeu que eu já estava ouvindo as vozes outra vez. Para os meus “amigos” da ativa, creio que eles não me consideram muito. Eu pensava que era importante para eles, pois sempre fui eu quem organizava as reuniões da galera, mas depois que entrei em recuperação eu não os procurei e tampouco eles se interessaram em saber porque eu desapareci.  Considero-me um membro produtivo perante a sociedade, pois na maioria dos lugares que vou, tento ser útil de alguma forma e isso me torna alguém importante para mim mesmo.

NA – Arrependimento

AM – Eu realmente me arrependo de minha teimosia em colocar a minha doença à prova; de planejar a minha recaída só para ter a certeza se era mesmo a maconha que desencadeava o surto-psicótico. Premeditei que isso aconteceria, mas o meu espirito rebelde gritou mais alto e fui de encontro ao auto-engano. E aconteceu como a psiquiatra disse que aconteceria: “se você usar maconha outra vez, vai surtar de novo” – Dito e feito. Mas agora estou internado e limpo, com isso minha doença encontra-se estacionada. Sinto-me muito culpado por ter influenciado um primo menor ao uso de maconha, ele infelizmente usa até hoje e mesmo eu estando limpo, ele não sente vontade de parar, mas eu coloco nas mãos de Deus em jejum todos os dias, para que ele pare, ele e outros quatro amigos que eu influenciei ao uso também, me sinto muito envergonhado por ter agredido a minha mãe quando estava na adicção ativa e embriagado, por mais que ela dia que tenha me perdoado, ainda sinto remorso. As situações que me envergonharam foram causadas por mim quando eu bebia bebida alcoólica. Sinto vergonha das ressacas morais que eu sentia após uma noite inteira de farra, pois vomitava pela casa e tinha que limpar sozinho o meu vomito e  os dos outros. Sinto vergonha por ter concebido meu filho enquanto estava embriagado, porém acredito que esses defeitos não pertencem ao meu caráter e sim à minha adicção, do contrario não sentiria vergonha. Meu comportamento durante a adicção ativa, egocêntrico e manipulador, muitas vezes me fez sair ganhando, mas a ressaca moral era muito maior do que as vantagens que eu tinha, esses comportamentos não me deixavam ter um pingo de altruísmo e isso hoje contribui para minha culpa e vergonha.

NA – Seguindo em frente

AM – Sei exatamente como é caminho de agonias que  terei de trilhar para manter-me limpo e nem por isso penso em desistir dele. Eu fiz às pazes com todas as concessões que terei de fazer para permanecer limpo. Sim, porque primeiro é preciso admitir que se é impotente perante a adicção e que vida tornou-se incontrolável a si mesmo. A partir disso é possível dar o primeiro passo na trilha da recuperação. Estou pronto para abandonar as drogas e seguir pelo constante caminho da recuperação. Estou pronto para ignorar o egocentrismo e ser mais altruísta de modo que saiba como me colocar no lugar do próximo para ajuda-lo. Estou pronto para manter contato diário com o Poder Superior. Estou disposto a lutar para nunca mais recair, pois não desejo um Surto Psicótico nem para o meu pior inimigo. Estou disposto a dar exemplo, primeiramente, para mim mesmo e não fugir dos primórdios de minha crença na recuperação para que o exemplo dado a mim seja exemplo a outros. Continuar meditando com Deus todos os dias; frequentar o grupo de NA com regularidade, sendo assim terei que estar na sala todos os dias. Essas duas atitudes irão me ajudar no processo de vir a acreditar; juntamente com o despertar espiritual que o trabalho dos passos irá me trazer. Consigo compreender que iniciei o processo de vir a acreditar e sei que tenho que fazer mais para que eu consiga suprir todas as áreas que necessito para ficar limpo. “Só por hoje” devo tomar essa decisão todos os dias. Não tenho reservas nem medo de tomar essa decisão, pois compreendi que isso é essencial à minha recuperação. De imediato não tomei nenhuma atitude para dar sequencia á minha decisão, mas com o passar dos dias, escrevendo os PASSOS e tendo um despertar espiritual, admiti que era impotente perante minha adicção; que a minha vida tinha se tornado incontrolável; que deveria acreditar que um poder maior do que eu me devolveria a sanidade: depois coloquei tudo isso nas mãos de Deus, às minhas vontades e à minha recuperação. Para atingir minhas metas não terei que comprometer nenhum de meus princípios, não terei  que ser desonesto, nem cruel, nem desleal com o outros nem comigo mesmo, pois penso muito no próximo, ao ponto de que seria muito difícil prejudicar alguém para me beneficiar, eu poderia dizer que isso é impossível. Identifico o meu sentimento de amor quando: há algo que eu me apego e isso é tirado de mim, daí sinto raiva e angustia; quando tenho apreço por algo e quando estou feliz por fazer minha família e próximos felizes; quando vejo um sorriso no rosto da minha mãe e da minha irmã, ainda mais se tiver sido eu o causador do sorriso, aí me sinto lisonjeado. Não há nenhum sentimento que eu tenha dificuldade de experimentar, pois até mesmo pelo inexplorado e desconhecido sinto atração. O único sentimento que não quero ter é, o prazer espontâneo e instantâneo que a droga dá. Não quero esse sentimento nunca mais. As únicas vezes em que eu tentava esconder meus sentimentos, era na adicção ativa, nela reprimia meus sentimentos de angustia e desprezo em relação ao uso abusivo da maconha, mas isso não me pertence mais, pois hoje eu não tento mais que esconder meus sentimentos de nenhuma maneira. As coisas não fluíram bem na faculdade, mais da metade das matérias que eu estudava não consegui fechar e sendo assim, como já estava usando muita droga, usava ainda mais para esquecer que não estava bem na faculdade, eu não conseguia fazer os trabalhos e quando chegava na faculdade e via que todos estavam se dando bem, porque estavam se esforçando para isso, e eu fui ficando para trás, ficava triste, então eu ia para casa e fumava maconha, muita maconha mesmo. Eu acreditei que estava tudo bem comigo, que eu poderia usar a droga e frequentar a faculdade. Acreditei mesmo que conseguiria conciliar as coisas, mas eu não consegui, já era para eu estar no terceiro período, mas ainda devia as matérias do primeiro, isso me fez perceber que eu não estava conseguindo entrar no ritmo das aulas, mas pensava - “futuramente me darei bem nas matérias”  -mas como? Se eu não ia as aulas e a maioria das bombas foram por faltas. Quando eu usava droga eu tinha maus sentimentos, assim eu usava mais drogas para reprimir esses sentimentos. Mas agora que eu estou limpo, eu trabalho a aceitação perante a identificação dos meus sentimentos, agora eu sei bem o que eu sinto e não uso mais drogas para me anestesiar e nem para fugir da realidade.

NA – Esperança

AM – Tenho esperança na minha recuperação. Acredito que conseguirei a minha sanidade novamente. Tenho esperança em minha família que nunca desistiu de mim, até mesmo nos momentos de insanidade total. Acredito nos meus sonhos, creio que Deus está com Sua mão sobre a minha vida e que com isso serei vencedor e engrandecerei o Seu Santo Nome. Depois que entrei em recuperação  minha fé em Deus e na vida cresceu fortemente. Consigo orar todos os dias e meditar em Deus nos momentos em que eu achar pertinente. Creio que um poder maior do que eu  poderá ajudar-me a ficar limpo. Um poder maior do que eu poderá confortar o meu coração de uma forma que os vazios sejam preenchidos com Sua Graça.

NA – Motivação (Sobre o inventário)

AM - Fiz um inventário moral destemido e minucioso de mim mesmo para ajudar-me a me conhecer melhor. Me ajuda a questionar-me sobre o que estava errando e o que poderia ser resolvido conforme cada necessidade, faz com que eu compreenda melhor meus anseios e meus sonhos, antigos e novos. Fui motivado a trabalhar esses passos para que eu termine meu tratamento na clinica e volte para casa, não posso adiar esse trabalho, pois ele me mostrará quem realmente eu sou, todos os meus segredos serão contados aqui, com isso eu terei um despertar espiritual e poderei partilhar com a minha terapeuta e enfim concluir o meu tratamento “não adiar” significa: não colocar objeções acima dos meus passos que estão sendo dados pausadamente. Não estou com medo de fazer isso, estou ciente que é necessário faze-lo para o bem da minha recuperação, serei profundo e isso significa falar de tudo. Esse passo (12) é para retirar todas as reservas do meu passado, serei destemido e isso significa não temer o que eu vou escrever, pois estou consciente de que isso me dará coragem, determinação e fé, estou colocando as palavras do meu coração nesse inventário para ter a certeza de que eu conseguirei lidar com tudo aquilo que for revelado aqui, no meu inventario moral. A palavra “moral’ não me causa espanto nem desconforto, porque através dela, descubro minha própria moralidade individual. Não me sinto incomodado com as expectativas da sociedade em relação a minha recuperação, tampouco tenho medo de não conseguir me ajustar a essas expectativas, pois estou sendo preparado para enfrenta-las em meu cotidiano, por isso estou em uma clinica de contenção, aqui eu vivo os meus princípios e tenho um despertar do não desejo de usar drogas. Primeiramente valorizo a vida que Deus me concede todos os dias; depois valorizo os princípios espirituais; valorizo o principio da integridade, da honestidade e do altruísmo, pois é dando que se recebe. Antes de usar drogas eu valorizava a vontade de não usar, quando me perguntavam o que eu achava de cigarros eu respondia que não achava engraçado ser uma locomotiva humana, mas hoje em dia eu fumo cigarros, pois comecei a fumar para esconder o cheiro da maconha, quero me libertar desse vicio, mas por enquanto não consegui forças. A minha decisão de trabalhar a minha recuperação é uma demonstração de coragem, pois estou fazendo um destemido e minucioso inventário moral de mim mesmo, portanto devo demonstrar confiança para escrever coisas plausíveis e honestas sobre mim. É uma demonstração de fé, pois acredito que tenho um despertar espiritual com o trabalho de cada Passo. É uma demonstração de honestidade, pois não contarei nenhuma mentira. É uma demonstração de boa vontade, pois acima de tudo compreendo que é necessário trabalhar os passos para seguir em minha recuperação. Não tenho ressentimento em relação a ninguém, não tenho ressentimento a nenhuma instituição, nenhuma clinica, nenhum profissional. Não tenho nenhum motivo para agir movido pelo ressentimento. Eu nunca fui desonesto, portanto não tem como isso  ter contribuído para algum ressentimento. No inicio da internação fiquei ressentido com a minha mãe, mas hoje já aceitei que essa era a única alternativa. Sei que foi o meu uso de drogas que levou-me a ter outro surto e ser internado mais uma vez, mas esse ressentimento do inicio não afetou o meu relacionamento comigo mesmo, nem com os outros e nem com o Poder Superior.


NA: Um conselho:

AM: O mesmo que eu disse para minha mãe e a minha irmã: não pensem que usuário de maconha  vai ler artigos e coisa e tal sobre os malefícios  da maconha. Não mesmo. Quando minha mãe comprou e me deu a Revista Veja que trazia na capa a matéria "Maconha faz mal, sim", eu peguei a revista, coloquei na mochila sob a alegação que a mostraria aos meus parceiros de "viagem", depois sumi com ela. Maconheiro é convicto de que maconha não é droga, não faz mal, só faz o bem, deixa alegre e com fome. Não pense que usuário de maconha se considera um viciado. Jamais. Não pense que maconheiro vai aceitar tratamento e convite para NA, não vão. A gente não aceita que precisa de recuperação nem estando no fundo do poço. A gente só aceita a recuperação, e coercitiva,  quando é freado pela justiça ou, como eu, por causa da insanidade mental. Não pense que a maconha é a única porta para às outras drogas. Há uma droga pior do que qualquer outra droga e essa é liberada no mundo todo: o álcool e esse sim é a porta que fica escancarada dentro dos lares a começar pelos pais. Um pai que deixa o filho menor "experimentar" a sua cerveja, que incentiva o filho a beber para ficar menos tímido, é pior que um aliciador. É com o álcool que vem a vontade de se extasiar sempre mais. Aí para se extasiar nenhuma droga será o suficiente. A maconha faz mal, sim, se usada abusivamente. Só que um maconheiro nunca vai considerar que faz uso abusivo. Só se ele pirar de vez, aí é tarde demais. Piração não tem cura e a adicção também não: entre as duas, escolha a segunda. Com ela pelo menos você fica bem na fita, fica limpo, limpo, limpo e cheiroso. Mas esse conselho vai para os pais que ficam felizes por saberem que os seus filhos SÓ tomam uns golinhos de vez em quando e  usam SÓ maconha. Mas se o seu filho estiver no fundo do poço, não vire às costas para ele. Jogue uma corda e depois, com amor e bondade, o puxe para fora e não deixe nunca mais ele caminhar sozinho. Vá com ele para o NA. Falei.


 * Arthur Miranda tinha 20 anos e era poeta e estudante de arquitetura, cometeu a "automorte" no dia 17 de agosto de 2013. Detalhes de suicídio não são revelados por questões éticas sociais. Esta entrevista faz parte do manuscrito "No jardim de ervas daninhas - pague para entrar e reze para sair" - escrito por Arthur Miranda.